terça-feira, 20 de maio de 2014

Você tem medo de quê?


Quando muito pequena meus medos pareciam enormes, de tão grandes conseguiam imobilizar meu frágil corpo, e por alguns segundos parar meu coração... Assim eu mal passava por baixo do alçapão, que dava acesso ao sótão da minha casa, pois ali morava uma impiedosa bruxa que me pegaria para comer. O quadro do Charles Chaplin sentado em uma soleira acompanhado de uma criança, me forçava a passar rastejando pelo chão abaixo, numa tentativa de fugir daquele olhar que me perseguia. E por tantas vezes dei descarga e sai correndo sem olhar para trás, com medo que a mulher de branco aparecesse no banheiro...

Confesso ter sido uma criança com muitos medos, hoje aparentemente são pequenos, talvez por consequência do tamanho do meu corpo, como aquela sensação de que a casa em que você morou na infância não é tão grande quanto parecia... 

Ainda não consigo olhar para uma janela de vidro quando a noite chega, tampouco ficar sozinha na casa da minha avó... Mas estes medos me parecem fáceis de serem burlados, afinal, com o passar dos anos adquirimos outros medos, e não basta somente não olhar para a janela, pois estes outros medos podem te assombrar por todo o dia, e mais ainda a noite, não pelo escuro, mas sim pelo silêncio que nos faz ouvir a voz do coração, ouvirmos nossas inquietações, nosso "eu" interno e todas suas confusões, possibilidades, angustias e frustrações... e claro, nossos medos...

Meus medos são grandes hoje em dia, dos mais diversos formatos, tamanhos e intensidades... mas diferente de quando eu era pequena e frágil, me equipo com minha armadura, moldada pelos meus sonhos, fundida com meus valores e resistente feito de esperança, me levanto a cada dia com a certeza de ganhar a guerra constante entre meus medos e aspirações, com a destreza de uma heroína, digna das mais belas e gloriosas histórias, acabo cada dia com uma conquista de um novo território dentro de mim.

Não importa quais medos estão por vir, quais ainda estão aqui assombrando, que alguns dias eu perca os sentidos e me esconda de mim por medo do que eu já vi, desde que no dia seguinte o sol volte a brilhar e iluminar os caminhos por onde terei que passar.

E você tem medo de quê?




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