quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Cigarro: meu (falso) amigo...



Certa vez, lá pelos 16 anos, minha prima e eu tivemos a genial ideia de experimentar um cigarro. Seria este, considerado por nós duas, um ato de rebeldia familiar. Ideia fixa, peguei um maço de cigarro de menta que estava na minha bolsa, no qual eu carregava para uma colega da escola já fumante mas que tinha medo dos pais descobrirem, e sem pestanejar acendemos nosso primeiro cigarro... Claro, o sabor era horrível e a pergunta que nos fazíamos: como as pessoas podem gostar disso? Após as primeiras baforadas, alguns exercícios para as primeiras tragadas: puxa a fumaça na boca, "sua mãe apareceu", o susto fez você engolir a fumaça... "não era ninguém", suspirada de alívio soltando a fumaça... pronto, você aprendeu a tragar! 

A questão é que mesmo o sabor não sendo tão bom, a brincadeira era gostosa. A sensação de estar fazendo algo errado e escondido nos presenteava com adrenalina, e altas emoções, além de aventuras conjuntas, que marcou grande parte da minha adolescência.... Enfim, esta é só mais uma história dentre tantas outras de outros fumantes, que tiveram suas razões para começar a fumar.

Obviamente que fumar é gostoso, senão não teriam tantos fumante pelo mundo, certo? A bem da verdade é que a sensação da fumaça entrando em nosso peito é deliciosa... nos relaxa, dá prazer e compõe diversos momentos de nossa vida, por exemplo, quando toca a sua música favorita, ela ficará ainda melhor fumando; ou, a sobremesa após as refeições serão substituídas por um delicioso cigarro que encerrará o ato de almoçar ou jantar; você terá no cigarro um ótimo aliado para conhecer pessoas no fumódromo da balada/ bar, ou em algum lugar público, e a pergunta chave: você tem fogo?; você realmente terá um companheiro para quando estiver sozinho, e até depressivo, ele por algumas vezes será sua única companhia; e ele te fará relaxar absurdamente em situações estressantes... e por aí vai...

O tempo passa e para alguns a brincadeira se torna vício, daqueles bem ferrados mesmo. Ou seja, você vai contar moedas para poder sustentar seu vício; vai se pegar desesperado quando descobrir às onze horas da noite que você tem só mais um cigarro e todas as padarias estão fechadas, e mesmo caindo uma chuva torrencial você irá procurar um posto de gasolina para se abastecer; vai dar preferência à lugares que tenha área de fumantes, assim como visitar amigos fumantes; vai criar uma rotina de horários e lugares para fumar, como na pausa do trabalho, no caminho para casa e etc; se é mulher sempre irá procurar uma bolsa pequena para ir às festas, mas não tão pequena a ponto de não caber seu kit sobrevivência: cigarro, isqueiro, celular, uma balinha e batom; até nos invernos mais rigorosos você irá se encapotar de roupa para poder fumar seu cigarro na varanda/rua, mesmo que da forma mais desconfortável que um ser humano possa se submeter; você se controlará em questão de quanto tempo passou desde o último cigarro fumado, na esperança de não ser um super viciado, e após vinte minutos percebe que seu corpo quer mais um cigarro... sim, você é um viciado...

A verdade é que todos os fumantes sabem os malefícios envolvidos no ato de fumar. Assim como também em cada encontro de amigos, familiares ou de colegas de trabalho, não aguenta mais  ouvir as perguntas: Sabia que fumar faz mal? Por que você não pára de fumar? De qualquer forma, apesar de respondermos estas perguntas de forma abrangente, não significa que não pensamos a respeito, e mesmo que a vontade não seja de parar de fumar, em algum momento esses pensamentos já passaram na cabeça de um fumante.

Sendo assim, e após quase 14 anos como fumante, e muitas reflexões, chegou o meu momento. Por diversas vezes eu colocava um marco essencial para que eu parasse de fumar, que eram desde arrumar um namorado, o que nunca me fez parar de fumar tendo sido o namorado fumante ou não; assim como eu pararia de fumar quando praticasse esporte, mas nunca pratiquei esporte e todas as tentativas de me tornar ativa foram frustradas; em uma nova rotina, mas logo na nova rotina era inserido o cigarro; quando eu morasse em outro país em que o cigarro fosse caro, e mesmo morando na Alemanha, com o cigarro caro, continuei fumando... ou seja, nenhuma promessa adiantava.... mas no final de semana passado algo mudou em mim, e após uma noite muito mal dormida acordei disposta a não fumar mais... sem nenhum marco, ou influência e amparo de outras pessoas... aquela era a decisão mais verdadeira e intima que eu tinha tido em todos os anos de fumante...

E desde então não tenho fumado... sim, é muito recente, e não descarto a possibilidade de ter recaídas, o importante é que o primeiro passo foi dado, e com muita certeza do que eu queria... É difícil? Óbvio que é! Descobri que somos nosso maior boicotador, e fica ecoando em nossa mente diversas frases que poderia nos fazer desistir, ficamos em conflito constante, um alerta sem fim para que não sejamos traídos pelos movimentos automáticos do nosso corpo que ainda está clamando pelas doses de nicotinas diárias... Mas também vem as recompensas: noites mais bem dormidas, sabores e cheiros mais fortes, nada de acordar com gosto amargo na boca, e a sensação de que você ainda é capaz de controlar seu corpo...

Enfim, só queria compartilhar com vocês este momento tão particular da minha vida, e você é fumante? ex-fumante? Tem dicas ou gostaria de acrescentar algo?

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