segunda-feira, 17 de março de 2014

A menina que colecionava pássaros...



Era sábado de primavera, levantou-se da cama e esticando os pés alcançou suas pantufas. Desceu vagarosamente as escadas, seu corpo ainda não havia acordado por completo, com uma das mãos era preciso esfregar seus olhos, na tentativa de fazê-los abrir e enxergar o dia que se anunciava pelos feixes de sol que entravam pela porta, na outra mão seu urso vinha sendo arrastado por um dos braços, e cada degrau o fazia pular, também era hora dele acordar.

De longe já sabia que não era a única a levantar cedo, era possível ouvir a vida acontecendo do lado de fora da casa. Chegando ao quintal encontrara seu pai de costas, olhando para uma das paredes que cercavam sua casa. Na parede onde o sol batia por completo, estava disposto uma série de gaiolas, não sabia contar, e nem precisava, dava para ver que eram muitas gaiolas, em sua maioria com um casal de pássaros, cada um de espécie diferente, mas que pareciam uma sinfonia aos seus ouvidos. Disputavam entre eles quem possuía canto mais alto, mais longo e  mais doce.

Sentou-se no chão a frente, colocando o urso ao lado, seus olhos vibravam ao ver tamanha agitação e cantoria, outros se banhavam em água fresca recém colocadas, além daqueles que se deliciavam com frutas e verduras que perfumavam o ambiente. Foi trazida de volta ao perceber o cheiro do café com leite de uma caneca colocada a sua frente pelas mãos de seu pai, que lhe oferecia também um largo sorriso, acompanhado de um longo bom dia.

E assim passavam-se horas, seu pai lhe dedicava alguns momentos para explicar cada particularidade de seus pássaros, o que comiam, como eram seus cantos, suas cores, de onde vinham, suas espécies, e uma infinidade de histórias que a faziam sonhar, e cada dia gostar mais daquele animal tão pequeno, mas de beleza tão grande.

Acordara no primeiro sábado de primavera, sabia que a sinfonia de pássaros não tardaria a começar, e da cama pode ouvir os primeiros cantos, conseguia identificar que se tratava uma sabiá-laranjeira, estava muito próximo de sua janela, e seu canto parecia ecoar pela cidade que ainda estava dormindo. Abriu um largo sorriso, considerava aqueles como o melhor "Bom dia". Levantou de sua cama, buscando com os pés seus chinelos, e em passos lentos foi à cozinha e passou um café, que aromatizou todos os cômodos de seu pequeno apartamento, há muito morava sozinha, mas já era hora de despertar o ambiente, gostava como o cheiro de café se espalhava pelo lugar, anunciando um novo dia. Com sua caneca na mão, percorreu a sala até chegar à varanda, onde pode contemplar o lindo dia que se iniciaria, olhou para o lado oposto, em direção à janela de seu quarto, havia logo abaixo uma árvore, e com paciência passou seu olhar galho a galho até encontrar o pássaro que viera lhe dar um bom dia, e com sorriso lhe retribua a bela cantoria.

Seu pai há muito havia partido, mas sua paixão por pássaros havia sido transmitida, teria orgulho ao ver que ela diferenciava cada canto, cada época, cada espécie... mas agora ela não os queria presos em gaiolas, aprendera que sua coleção de pássaros já pertencia dentro de si.

Sabia que a felicidade dos pássaros estavam em poder voar e retornar, assim também era a sua felicidade. E esse segredo só pode entender quando seu pai partiu, e mesmo que nunca mais voltasse, ainda possuía o cantos dos pássaros para lhe recordar, que amor e liberdade devem estar sempre juntos.

Foto: Patricia Schunck

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