Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar.
(Katherine Mansfield)
Já era madrugada, do lado de fora os pingos de chuva caiam incessantemente, e da sua cama, no breu do quarto, só era possível ouvir cada batida no telhado, uma sinfonia constante, às vezes mais fraca, outras mais fortes, ficava imaginando qual seria a intensidade se as gotas caíssem sob seu rosto, ao invés do telhado... pelo menos poderiam livrá-las dos pensamentos que não a deixavam dormir.
A pergunta havia sido feita naquela tarde: - O que você quer ser quando crescer? Sem titubear respondeu: vou ser escritora, atriz, dançarina, professora, diretora de empresa, psicóloga e artista plástica! Ter uma casa em Nova York, e uma casa no campo, perto de um lago, além da pousada em alguma praia, até quem sabe na Grécia...
- Desculpa minha querida, mas não podemos ser isso tudo! Quando você terminar os estudos terá que escolher uma profissão! E se você quiser ser bem sucedida e ter dinheiro, irá dedicar sua vida inteira no que você escolheu...
Aquelas palavras lhe caíram como um tijolo na cabeça, que primeiro atordoa e depois não para mais de doer... Como seria possível escolher só uma coisa para se fazer a vida inteira? Ela gostava de muita coisa, escolher uma, seria abdicar dos outros sonhos!
Como seria possível viver sabendo que só se tem uma vida, e nesta vida não se pode fazer tudo o que quer? Como faria para lançar seus livros de poesias e contos? E o ateliê para pintar quadros, fazer vasos de barro, pintura em tecido e traquinagens? Como conseguiria ser professora e transmitir o que havia aprendido? E a empresa, como ser uma executiva, analisar os investimentos, viagens de negócios?
A vida era mesmo injusta! Tantas oportunidades e tão pouco tempo! Eram muitas opções para se escolher somente uma! É como ir a uma sorveteria por quilo e pegar só um sabor de sorvete, não havia lógica nisso... E os outros sabores? E as misturas e descobertas de novos gostos, texturas, explosões de intensidades?
Não compreendia como poderia privar seus desejos, sendo que eles eram o que a movia... Tampouco entendia como tantas pessoas podiam abandonar seus sonhos, para viver uma viva de uma única escolha...
Ela sentia toda sua dualidade, ou melhor, sua pluralidade. Sabia que tudo o que fazia era com muita paixão, e que além disso, era apaixonada por muitas coisas, distintas, diversas, opostas, mas que saciavam sua felicidade e realização.
Naquela noite, ouvindo o barulho da chuva, havia decidido!
- Farei tudo que me fará feliz, por mais que achem que não há nada em comum, pois para mim haverá um sentido... Quem alimenta a alma, alimenta também o coração, corpo e espírito... O dinheiro será uma consequência de realizações e não a finalidade por frustrações.
Adormeceu sorrindo, com a serenidade de quem havia descoberto seu caminho...

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