Assim me enveredei para a gastronomia, área que me encantava desde muito nova, quando desde os meus sete anos me realizava na cozinha fazendo bolos e panquecas, como meus pratos preferidos... Tinha prazer em montar as mesas de café da manhã e aos dez anos já gostava saborear massinhas de pasteis fritas salpicadas de açúcar e canela para acompanhar o café preto da tarde. Me recordei de quando bem pequena não desgrudava de nossa empregada, o nome dela era Rose, de corpo esguio e pele negra como a noite, reluzindo seus grandes olhos carinhosos e um largo sorriso branco e verdadeiro... ela que com toda sua paciência me ensinava os truques dos seus preparos, e me reservava as cascas de batatas e o que fosse possível, para que eu pudesse treinar meus cortes e fazer meus preparos com meus utensílios rosa de plástico... Desde nova gostava da cozinha, fosse lavando a louça, servindo os convidados de casa e, claro, cozinhando tudo o que fosse possível, nunca me sentindo intimidada nem pela panela de pressão, quando aos nove anos fiz meu primeiro feijão.
E embalada em doces lembranças, desde olhos vidrados na porta do forno até das grandes panelas de onde saiam cheiros maravilhosos da comida servida pela minha vó em seu bar, fui atrás da deliciosa gastronomia. Talvez ainda cheia de romantismo acerca de todo os encantamentos possíveis de uma cozinha, mergulhei de cabeça, achando algum sentido às escolhas feitas e encontrando certezas em cada sorriso que aparecia em meio às garfadas dos preparos apresentados.
Mas nessa vida tudo têm um porém, e que graça teria se não existisse? Não, nem tudo são flores, e mesmo com todo o romantismo e beleza despertado de um lindo prato, ou de surpreendentes aromas e sabores conquistados dignos de um verdadeiro alquimista, que buscava transmutar qualquer metal inferior ao ouro, para isso o caminho é árduo.
Mesmo com tantos avisos, desde o primeiro dia que coloquei meu pé em uma cozinha em busca de me profissionalizar, ouvi e li todos os "poréns" desse novo mundo... Afinal, se engana quem acha que basta colocar a dolmã, a toque blanche e dar um sorriso para a câmera ao expor um lindo prato. Provavelmente por muitos anos você não será visto fora da cozinha, e possivelmente muito tempo você estará lavando louça, limpando chão, cortando ingredientes e se cortando, queimando os pratos, os braços, as pontas do dedo.. tendo jogo de cintura para consertar uma receita, e testando novas receitas... e não ache que tudo o que você fizer dará certo! É um exercício de paciência e perseverança. Para as mulheres nada de unhas compridas, esmaltes nem pensar e maquiagem também são proibidos, ou seja, há também o exercício de desprendimento da beleza.
Além de tudo você irá se deparar com um mercado que paga pouco e exige muito, com muitas horas de trabalho, em qualquer dia da semana, e muita disposição para aguentar muitas horas de pé em movimento constante, em locais quente, corrido, com muitas pessoas falando ao mesmo tempo, e clientes esperando o prato perfeito... nesse meio todo você descobrirá que você é máquina de suor, e as horas são algo totalmente relativo, distante em relação ao horário que você irá terminar, e ao mesmo tempo muito presente para saber quantos minutos algo poderá ficar no fogo antes de queimar e estragar todo o trabalho.
Não há glamour! Você encontrará as mais diversas pessoas, dos mais variados lugares e histórias, nem todos terão a oportunidade de estudar como você, eles tiveram a escola da vida, e são carregados de experiência e entusiasmo em te ensinar.
Como em qualquer área terão pessoas boas e pessoas más, mas isso é um mero detalhe no contexto geral, principalmente quando no final seu cliente vai até a cozinha para lhe agradecer pela refeição maravilhosa que teve, e nesse momento você perceberá que aquele agradecimento e satisfação valerá todo o caminho percorrido, as dores e prazeres dessa profissão, que apesar de dificil é também muito gratificante.
Nem tudo são flores... mas quem precisa das flores quando temos os mais diversos aromas e sabores saindo da panela?





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