quinta-feira, 10 de abril de 2014

Prefiro a realidade






Conheci meu namorado perfeito aos 14 anos... apareceu para mim em uma tarde ensolarada em um domingo de outono no parque da cidade. Eu estava deitada sobre a grama observando a dança das folhas amareladas, que vez ou outra eram levadas pelo vento, e de repente vi sua imagem.

Ele tinha lindos cabelos castanhos, nem curtos, nem longos... na medida para derreter qualquer coração, quando despretensiosamente passava as mãos entre seus cabelos para arrumá-los. De riso largo e sem pressa era possível ver o alinhamento perfeito de seus dentes brancos, que brilhavam em contraste com sua boca tão avermelhada. Usava roupas mais descoladas, demonstrando seu bom gosto e salientando seu corpo que não era malhado, mas tinha ombros largos e belos braços torneados naturalmente. Sua pele irradiava saúde, com ares do verão, mantendo o bronzeado que adquiriu nos finais de semana que passou surfando na praia.

Gostava de animais, de leitura, e escrevia as mais belas declarações e poesias, sem achar nada daquilo bobo, ou piegas. Tinha um ótimo gosto musical, além de saber dançar os mais variados ritmos e tocar alguns instrumentos. Sua sensibilidade permitia que chorasse em um filme, ou ouvindo uma declaração, e com essa mesma sensibilidade sabia quando chegar com flores, chocolates ou só com seu abraço. E apesar de tão sensível sabia ser homem, e ousar nas mais variadas fantasias e desejos de meu corpo. Dono do olhar mais expressivo, com longos cílios e olhar penetrante, eu saberia sem que ele falasse, quando estava me desejando ou quando estava me amando.

Ele era meu namorado perfeito! Mas só existia no meu imaginário...

E por muitos anos o procurei, em cada nova relação busquei um pedacinho do meu namorado perfeito... em alguns até encontrei algumas características, mas nunca me senti satisfeita faltando tantas outras partes... E de tanto procurar me cansei. Era muito dura a realidade, e principalmente os defeitos que vinham acompanhados com cada um deles. Me sentindo sem esperança desisti, me deixei a deriva, num mar calmo de sentimentos profundos, no meio do oceano era praticamente impossível me avistar.

Foi em uma tarde ensolarada de domingo, no outono, quando eu o encontrei. Meu namorado perfeito? Não. Não mais! O encontrei em minha realidade, sem checklist ou análises, simplesmente o encontrei... ou melhor, fui encontrada no meio do oceano, e salva do marasmo dos sentimentos adormecidos. Perfeito? Jamais! Eu também não era... mas com ele esqueci do meu imaginário ideal, e tive a vontade de viver o real, pouco importava a cor dos seus cabelos, ou se não sabia dançar ou tocar algum instrumento, não sabia quais suas qualidades ou defeitos, mas não tive pressa de saber, o tempo poderia mostrar dentro de suas infindáveis batidas.

Sim, eu prefiro a realidade sentida, vivida, sofrida, e de risos e abraços, beijos e desejos, do que o ideal sonhado e jamais alcançado.


3 comentários:

  1. Momentos de beleza não requer sofisticação, como agora, ao ler seu texto ouvindo: "La Vie En Rose" na voz do Louis Armstrong. Simplesmente acontece.
    Prefiro a realidade e o que ela traz.
    Parabéns pelo texto coerente Mariana.
    Abraço!

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    1. Luiz, lendo seu comentário não tive dúvida, coloquei a musica indicada e reli o texto, em uma tentativa de poder compartilhar o descrito... Muito obrigada pelo belo momento!

      Abraços!

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    2. Fico grato em "Reencompartilhar" esse momento com você...(acabei de inventar uma palavra, rs)
      Abraço!

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