segunda-feira, 28 de abril de 2014

O seu toque - Fragmentos






I
Com olhar curioso e atento ela observava cada movimento das mãos habilidosas do músico que se apresentava no bar naquela noite. Do balcão era possível ter a visão completa do ambiente, acompanhada de uma taça do seu vinho favorito, presenciava na boêmia todos os tipos de pessoas que a cercavam, desde grandes grupos de amigos que levantavam seus copos brindando algo, até casais se acariciando e fazendo juras de amor. Sua atenção voltava ao músico, que iniciara uma nova canção, daquelas impossíveis de não  cantar junto, mas seus olhos recaiam sobre aquelas mãos, grandes, marcadas, com veias aparentes, e que não paravam um segundo sequer, e com aquele movimento extraia toda uma complexidade sonora que ecoava por todo o bar.

II
Não tinha dúvidas, para ela as mãos eram algo especial, e além disso, essencial... Um meio para realizar tudo o que fosse possível. Olhava suas próprias mãos, tinha um carinho especial por elas, afinal sempre ouvira falar que tinha mãos de pianista, longas e femininas, mas o que mais gostava é que com elas escrevia sua história e sentia o mundo a sua volta. Poderia tocar qualquer coisa e sentir as mais diversas texturas, levar seu alimento à boca, pintar, escrever e mesmo quando não tinha nada a fazer, despida em sua solidão, era sua própria mão que enxugava as lágrimas derrubadas.

III
A cada encontro não demorava muito a analisar os traços da mão do pretendente, talvez por isso era utilizada a expressão: pedir sua mão em casamento, dando a ela todo o sentido da frase quando imaginava que jamais estaria com alguém no qual não teria gostado da mão, afinal, seria aquela mão que iria acariciá-la, afagá-la e juntos iriam construir. Obviamente havia algumas características que mais lhe chamavam atenção, mas o essencial é fosse masculina, e principalmente, tivesse identidade... para ela as mãos eram mágicas, e se encantava com a forma que eram repousadas sobre algum lugar, ou utilizadas como apoio, de forma tão despretensiosa que se tornara algo lindo de se ver, algumas eram sensuais ao simples movimento usual.

IV
Naquela noite, sentados um ao lado do outro, se entreolhavam sem que nenhuma palavra fosse dita, não eram preciso palavras, seus corpos pediam mais do que simplesmente ouvir, seus corpos desejam se sentirem, mas ainda não havia proximidade suficiente entre eles, tentavam um decifrar o outro... Ele estendeu o braço em sua direção, ela observou calmamente a mão dele se aproximar, e com a palma voltada para cima repousou seu rosto sobre a mão, sentindo todo calor tomar sua face... era o toque mais doce que tivera nos últimos anos, sentindo-se protegida por alguns instantes, ali, apoiada naquela mão acolhedora... Aquele simples toque desfizera qualquer distância entre eles, e sabiam disso...

V
Acordou com o sol invadindo seu quarto, já devia ter passado das dez da manhã, aquela iluminação atravessando a cortina de seu quarto tornava-o acolhedor o suficiente para não querer levantar. Deitada de lado sentira um suspiro em sua nuca, e antes que pudesse se virar uma mão pousou sobre sua coxa... A luz brincava de dar novos tons naquele quarto, difundindo um ar matinal em meio aos filetes de raios de sol que que encontravam em alguma  fresta um caminho para entrar sem barreiras naquele ambiente. Um daqueles raios iluminavam a mão que tomava-lhe quase toda sua coxa, parecendo ser tão pequena mesmo com seu mais de um metro de pernas. Sentia a doçura de cada movimento, enquanto a mão deslizou pelo seu corpo até chegar em seu ombro, puxando-a para ele, ao se virar se deparou com um largo sorriso acompanhado de um longo bom dia, enquanto recebia carícias no rosto e se enchia de alegria...  O amor morava ali...

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