terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Apenas uma parte...








Entrei no salão em busca de alguém conhecido, ir a festas com muitas pessoas sempre me deu medo, daqueles medos bobos e infantis, de não ser aceita ou ficar isolada.

Logo encontrei um grupo de conhecidos. Não que fossem meus íntimos, mas naquela situação qualquer nome familiar já me trazia conforto e segurança.

Em uma das mãos carregava uma pequena bolsa, na outra me muni de um espumante francês trazido pelo garçom, como se fosse meu refugio, assim saberia o que fazer com aquela mão, ao invés de deixá-la perdida em meio ao espaço, além de poder degustar uma das minhas paixões.

Me sentia feliz por prestigiar o lançamento do livro de meu amigo, era como se eu fizesse parte daquilo, eu que versava tanto com as palavras, e por inúmeras vezes conversamos sobre o projeto. Sim, eu sentia que havia uma parte minha ali, mesmo que pequena, talvez uma palavra, aquilo já seria suficiente... Já fora o tempo em que eu sonhava ser a musa inspiradora de alguém...

Em meio a tantos assuntos, discorrendo desde as grandes obras literárias, até o último assassinato da cidade, e banalidades das cores da moda na nova estação. Adentrando a noite, assim como alguns espumantes também, o garçom havia se tornado meu novo amigo, e não deixara meu copo e meus lábios sofrerem com a seca que já castigava o tempo lá fora. Autógrafos, fotos e muitos sorrisos inundavam o lugar naquela noite, a atmosfera propiciava uma felicidade compartilhada.

Um minuto de distração foi o suficiente para alguém esbarrar em mim, fazendo com que minha taça errasse o alvo de minha boca, e depositasse em meu vestido todo seu líquido cheio de bolhinhas... Quando me dei conta do desastre já era tarde, só poderia tentar achar o culpado de tal barbárie.

E foi nesse momento que nossos olhares cruzaram como se fossem destinados a algum momento se encontrar... Não consegui desvendar o que se passava naquele oceano azul reluzente, mas sentia que aquele olhar penetrava minha alma, me deixando desnuda por completo, sem ao menos desviar dos meus.

Nunca sentira aquele arrepio, que corria por toda minha coluna chegando à nuca, que estava livre dos cabelos naquela noite, parecia um sopro dos ventos frios do sudoeste que só chegara a mim naquele verão, enquanto os outros se abanavam em busca de algum frescor.

Faltava voz, sobrava vontade, e a coragem já nem estava mais por ali. Fui puxada para um extremo do salão, ele me ajudava a me secar, se desculpando de todas as formas possíveis.

Mas seus olhos.... ahhhh, aqueles olhos! Pouco importava o resto, não era nem pela cor, quantos outros olhos azuis já haviam cruzado minha vida. Mas aquele era diferente! Aquele olhar se expressava sozinho, trazia um mundo em verso, prosa e poesia, mostrava horizontes longínquos, que até Dom Quixote gostaria de desbravar em busca dos moinhos de ventos para salvar alguma donzela. Aquele olhar tirou minha roupa e me manteve intacta, mesmo parecendo impossível. Questionava-me, mas respondia, não precisando nada falar, e dizendo tudo. Me fez segui-lo e também soube me acolher... alguns segundos se fizeram em eternidade de descobertas de cada ângulo, levantada de sobrancelha, franzida de testa, dando mais visceralidade a cada expressão.

Naquela noite ao chegar a casa, ainda sob o olhar dele, entendi o que minha professora de português falava sobre a figura de linguagem: metonímia! Essa que eu nunca conseguia aplicar, mesmo versando com as palavras, esta figura nunca cabia. Mas essa noite tudo era diferente, pois encontrei minha parte pelo todo.

E naquela mesma noite comecei a escrever meu livro, sobre o meu homem metonímia, sob seu o olhar atento e acolhedor cada capítulo foi se desvendando no passar dos meses, e ainda hoje estamos juntos: eu, ele, e o nosso olhar um para o outro.

Posso não ser a musa inspiradora de nenhum poeta, mas achei minha inspiração naquele olhar...

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