| Foto: Adelson Junior, 2014 |
Foi amor à primeira vista, me derreti quando vi a linha perfeita que
separava seu focinho... do nariz para cima preto, dali para baixo branco,
evidenciando sua boca rosada, como se tivesse passado batom para me receber. E suas meias brancas? Só uma levantada, como se fosse um sinal de rebeldia a perfeição que lhe fora dada.
Era tão pequena que cabia em uma mão, e no primeiro dia a acolhi em meus braços
e levei para casa.
Lolita! Esse seria o nome que eu daria a ela. Tal qual a
obra célebre de Nabokov, e que fazia parte das minhas leituras naquele momento.
Era impossível ficar inerte perto daquela bolinha de pelo,
serelepe e arteira. Seu primeiro ano de vida foi dedicado a destruir todos os
objetos possíveis com suas unhas: sofá, cadeira, cortina, tapetes, nada escapava! Constava em sua lista de afazeres diários, tal qual um treinamento militar, a árdua tarefa de tatuar em nossas
pernas, pés, braços e mãos, todas as marcas possíveis de seus ataques ferozes,
com dentes e unhas afiadíssimos, deixando estampado em nossa pele quem mandava
naquela casa. Além, claro, de se dedicar a arte do furto, sendo capaz de tirar
qualquer coisa interessante das bolsas que estivessem na mesa.
O tempo passou e refinou sua postura, o andar era calculado,
com passadas cruzadas, dando um leve rebolado quando dava de costas aos nossos
chamados, tornando-a mais esnobe possível. Altiva, mantendo o olhar alto para
todos, jamais abaixara a cabeça para ninguém, sendo possível permanecer imóvel
e encarando a todos por longos períodos, ou enquanto achasse necessário para
mostrar que ela tinha domínio da situação. Foi apelidada de pata mansa, pois é
impossível saber quando está por perto, de uma discrição invejável, só se faz
perceber quando quer, sem nunca perder a pose.
Carinho? Somente quando for
solicitado por ela, caso contrário você levará de brinde um ataque para lembrar
quem determina as coisas.
Não que ela não precise de atenção, aliás, precisa de muita,
principalmente para comprar seus biscoitos preferidos, e lhe dar ao menos um
por dia, no momento em que ela está com vontade.
Ela não assume, mas gosta de dormir aninhada no meio das
nossas pernas. Para não dar a patinha a torcer, espera para que estejamos
dormindo, assim pode subir na cama e escolher o lugar que deseja sem ser
incomodada. Mas não espere acordar com ela ainda ali, ela
levantará antes de você e ficará sentada na porta, te observando, e fingindo que acabara de
chegar.
Alguns não gostavam dela, achavam que era traiçoeira, mal
humorada e até exigente demais. Poucos entendem sua essência. Ela escolhe aqueles que podem tocá-la,
e mostra claramente quando quer interagir, não há nada de traiçoeira, mas sim
de verdadeira.
Já conseguiu derreter o coração de muitos, que não
conseguiram deixar de amá-la ao conhecê-la em sua rotina e manias.
Dizem que os bichos são um reflexo do seu dono. Não há
duvida nenhuma disso, a cada dia se percebe o quanto somos parecidas, afinal nem de peixe gostamos...
| Foto: Adelson Junior, 2014 |
| Foto: Adelson Junior, 2014 |
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